Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
O Pós-Jornalismo

A história do Jornalismo

O Acta Diurna, publicação criada por Júlio César por volta de 59 a.C. para informar a população dos avanços das suas campanhas militares e outros factos sociais e políticos, é considerado por muitos o primeiro jornal de que há registo. Desde 59 a.C. até aos dias de hoje o Jornalismo sofreu inúmeras revoluções graças aos avanços da tecnologia: a prensa de tipos móveis de Gutemberg, o telégrafo de Samuel Morse, a rádio de Nikola Tesla (ou de Guglielmo Marconi, dependendo da opinião do leitor) e a televisão de Vladimir Zworykin foram quatro marcos completamente revolucionários na forma de fazer Jornalismo e de o levar ao espectador/consumidor.

Definição de Jornalismo

O Dicionário Porto Editora na sua versão de 2008 diz-nos que Jornalismo é a "actividade profissional da pessoa que trabalha em comunicação social, seja em publicações periódicas, seja na televisão ou na rádio, podendo exercer diversas actividades, entre as quais a redacção de artigos, a realização de entrevistas, a elaboração de noticiários, etc...". A Wikipedia define Jornalismo como a "actividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações". Já a Infopedia diz que Jornalismo é a "actividade informativa que se define por uma expressão nua, directa, impessoal e não literária, e que tem como principais características a brevidade, a concisão e muitas vezes o atractivo do sensacional". Em ambas definições fica patente o carácter factual e informativo que lhe é intrínseco. Apesar de existirem outras formas legítimas de Jornalismo como a reportagem e a crónica, o presente ensaio debruçar-se-á sobre a pura transmissão de notícias, o descrever factual e imparcial da actualidade. Assim sendo define-se Jornalismo, dentro do âmbito deste ensaio, da seguinte forma:

Jornalismo é a actividade de descrever factual e imparcialmente a actualidade, deixando de lado, na medida do humanamente possível, a perspectiva subjectiva de quem o realiza.

Os media jornalísticos

Durante quase todo o século XX os meios tradicionais para a difusão do Jornalismo foram principalmente o papel, a rádio e a televisão. Com o aparecimento da Internet as instituições jornalísticas foram, pouco a pouco, reproduzindo os seus conteúdos também na rede. No entanto, os paradigmas de comunicação eram muito próximos dos três suportes tradicionais. Foi só muito próximo do virar do século que se começaram a encontrar novos paradigmas comunicacionais para a forma em como os conteúdos eram mostrados e difundidos aos utilizadores. É na primeira década do século XXI que se encontram realmente novos paradigmas jornalísticos exclusivos das plataformas virtuais. Novas formas de chegar aos consumidores de notícias, novas formas de mostrar e disseminar a informação, novas formas de influenciar o público.

Os consumidores de Jornalismo

Até finais do século XX, os consumidores de Jornalismo desempenhavam um papel de espectador passivo, no sentido em que não tinham qualquer tipo de influência na forma em como a notícia lhes era apresentada e muito menos no seu conteúdo. A informação era consumida e, dependendo da sua importância para o leitor e/ou para a sociedade em seu redor, debatida em ambientes privados (casa, trabalho) ou públicos (café, escola, grupo de amigos). Esta era a opinião pública existente. O campo de debate, se bem que público, restringia-se a um espaço geográfico muito bem definido. Ela existia e era activamente participativa, no entanto, estava fora do palco jornalístico (salvo as secções de opinião do leitor, nos jornais, ou os foruns de opinião em que o espectador podia telefonar para deixar a sua opinião, tanto na rádio como na televisão).

O mesmo não é dizer que o palco jornalístico não retratava a opinião pública. Muito pelo contrário. No entanto, o palco jornalístico e a praça pública (onde se gera e evolui a opinião pública) eram espaços separados que interagiam entre si. Eis como funcionava: os jornais retratavam um fenómeno social, por exemplo, um elevado grau de pobreza nas classes mais baixas contrastando-a com a vida luxuosa dos mais ricos; em consequência da publicação desta notícia a opinião pública formada era a de que algo deveria ser feito para mudar esta situação; elementos das classes mais pobres juntavam-se e faziam, digamos, uma manifestação em frente do Parlamento; e por último, os jornais relatavam a existência desta manifestação e  suas consequências.

Podemos então dizer que Jornalismo e opinião pública eram duas esferas que se retro alimentavam. Eram, porém, espaços completamente diferenciados e claramente separados, tanto pelos actores que o realizavam, como pelos espaços onde aconteciam.

O Jornalismo na Internet

O surgimento da Internet vem provocar a última revolução no Jornalismo. Mas desta vez, não se trata somente de uma revolução na velocidade ou no formato em que o Jornalismo chega à população, trata-se de um avanço tecnológico que vem deitar por terra a própria definição de Jornalismo bem como a forma em como as grandes instituições jornalísticas da nossa época se financiam e funcionam. É com a Internet que começa o que ouso denominar como "pós-jornalismo". Mas vamos por partes. Falemos primeiro do como se adaptou o formato jornalístico ao meio Internet.

Com a massificação da Internet em meados dos anos 90, os principais jornais procuraram encontrar o seu espaço neste novo meio. Em 1996, o New York Times abre ao público a sua página web, restringindo certos conteúdos a utilizadores registados. Por volta desta altura todas as grandes publicações jornalísticas seguem o seu exemplo e criam o seu lugar na net, experimentando com este novo meio. Algumas decidem disponibilizar todo o seu conteúdo mediante uma pequena quantia mensal, outras fazem-no gratuitamente. São muitas as fórmulas encontradas: jornais com e sem publicidade, jornais que abrem o seu arquivo de noticias ao público mas restringem a edição do dia a utilizadores dispostos a pagar, etc. No entanto, todas estas experiências em nada desafiavam as bases do Jornalismo. Tratava-se somente de adaptar o Jornalismo a este novo meio, tendo como base o Jornalismo feito em papel, e de encontrar um modelo financeiro que o suportasse. Após uma primeira fase de experimentação, o paradigma adaptado em muito pouco se diferenciava do modelo utilizado há muito pelo Jornalismo tradicional, tendo como principal fonte de receitas os ingressos publicitários e uma pequena taxa de acesso aos conteúdos.

Paralelamente, ainda no final da década de 90, surgiram, com uma propagação absolutamente exponencial, os primeiros blogs (inicialmente chamados de weblogs) e que vieram dar ao cidadão comum a possibilidade de ter a sua própria coluna de opinião, onde era redactor, editor e director do seu jornal electrónico. Foi um evoluir natural da tradicional home page (pequena página de hipertexto com informação pessoal) para um formato mais dinâmico e simples de manter. A revolução dos blogs ofereceu ao internauta comum a possibilidade de ter uma presença online constante com o mesmo grau de visibilidade que qualquer outro jornalista de renome. De facto, uma minoria de bloggers mais reconhecidos deixaram os seus trabalhos diários para se dedicarem exclusivamente à sua página, tal era o seu sucesso.

No entanto, a verdadeira revolução começaria com o século XXI.

O RSS e o principio do fim

Em Dezembro do ano 2000 Dave Winer publicou o standard RSS (abreviatura normalmente interpretada como Really Simple Syndication mas que pode também ser lida como RDF Site Summary) na sua versão 0.92. Eis como funciona o RSS: qualquer sítio web (jornal, blog, ou outro) exporta os seus conteúdos no que é chamado um feed; o internauta, por sua vez, subscreve os feeds que lhe interessam; por último, utilizando um leitor de feeds, o internauta pode ler todos os conteúdos que subscreveu, tipicamente ordenados cronologicamente, sem ter que navegar pelos sites um a um.

O que no inicio pareceu uma pequena evolução tecnológica e uma simples comodidade de navegação veio dar lugar a uma das maiores revoluções na forma como se encaram as notícias, senão vejamos:

- O internauta, antes acostumado a ler as notícias nos sites dos jornais, e a ler as opiniões acerca das mesmas notícias nos seus blogs preferidos, passou visualizar ambos conteúdos no mesmo espaço virtual (o leitor de feeds);

- Os bloggers, acostumados a hiperligar os conteúdos que comentavam dentro do seu texto de opinião (o que levava o internauta a saltar de contexto), passaram a importar mediante RSS os conteúdos jornalísticos no seu site, apresentando comentário e conteúdo comentado na mesma página;

- Os jornais, que como muito disponibilizavam um espaço para comentários, passaram a incluir na página de cada notícia (graças ao RSS), os conteúdos gerados pelos bloggers acerca desse mesmo conteúdo.

Ou seja, a barreira entre notícia e opinião pública caiu por terra. A opinião pública passava a ser divulgada exactamente no mesmo espaço em que era divulgada a notícia o que levou o internauta a deixar de considerar uma sem a outra.

Podcasts, YouTube e o cidadão-repórter

Entre outras coisas os RSS vieram contribuir de forma muito significativa à disseminação dos podcasts. Os podcasts podem ser facilmente descritos como programas de rádio feitos por aficionados. Estes programas podem ser escutados em directo ou em diferido e tratam dos mais variadíssimos assuntos, desde as notícias da actualidade a aspectos muito concretos do hobby mais recôndito.

Por outro lado, os avanços da tecnologia Flash, e a diminuição considerável dos preços da largura de banda e do espaço em disco permitiram que em 2005 surgisse um serviço rompedor na Internet, o YouTube. Este serviço permitia aos seus utilizadores publicar videos, gratuitamente, com um limite de duração por vídeo de dez minutos. Surgiam os videocasts: pequenos programas de televisão feitos por amadores, que, há semelhança dos podcasts, abordavam todo o espectro de temas.

Blogs, podcasts e YouTube passaram a ser para o internauta o que o jornal, a rádio e a televisão era para o jornalista: o meio a partir do qual divulgar a sua mensagem. Mais: os próprios meios jornalísticos passaram a fazer eco dos conteúdos mais populares nestes três novos veículos de jornalismo amador. Uma nova barreira que se desmoronou: a existente entre jornalista e público. Se tradicionalmente o jornalista estava no palco, e o público na plateia, agora estes lugares eram permutáveis. O jornalista passou ele próprio a ser consumidor e comunicador das notícias geradas pelos internautas. 

Twitter: o último segundo da última hora

Em 2006 nasce um serviço, que, numa primeira fase, pareceu ser completamente desprovido de sentido para muitos internautas: o Twitter. Actualmente chamado de "o SMS da Internet" este serviço permite aos seus utilizadores enviar pequenas mensagens com um máximo de 140 caracteres a outros internautas que os seguem. Apesar de uma primeira incompreensão do objectivo do Twitter, foi este serviço que veio abolir a último alicerce jornalístico: o papel do jornalista enquanto disseminador da notícia. Com o crescimento deste serviço os meios jornalísticos passaram a ser completamente dependentes dos internautas. Já não são os jornais os detentores do que é uma notícia de última hora, nem sequer do que é uma notícia, são os próprios internautas que estão actualmente a vivê-la que a transmitem para o resto do mundo mediante os seus computadores ou telemóveis, via Twitter.

Por outro lado, são os próprios actores das notícias que as disseminam também via Twitter. Personalidades políticas (Barack Obama, Hugo Chavez, Rainha Rania da Jordânia), das artes (Stephen Fry, Steve Martin, Snoop Dogg), do desporto (Tony Hawk, Real Madrid, Cristiano Ronaldo) e até do próprio jornalismo (Keith Olbermann, Alberta Marques Fernandes, Larry King) que contam em primeira mão no Twitter as suas vivências que são propagadas em questão de segundos a todos os seus seguidores.

O Twitter veio associar aos meios jornalísticos um adjectivo que nunca antes lhe tinha sido associado, nem sequer remotamente: o adjectivo "opcional". Já não é necessário estar em contacto com os productos jornalísticos para estar informado das notícias de última hora. 

Huffington Post: um pós-jornal

O site Huffington Post foi um dos primeiros sitios online que soube aproveitar a revolução nos meios jornalísticos ao seu redor para criar um novo tipo de meio com conteúdos jornalísticos ao mesmo tempo próprios e dos leitores, bem como de outros bloggers convidados. No Huffington Post é normal encontrar um titular que remeta para uma página externa ao próprio site. É também normal encontrar referências a tópicos "quentes" do Twitter, a videos populares do YouTube ou a artigos polémicos de blogs conceituados, e não os reaproveita, senão que apenas os hiperliga. A página de uma notícia do Huffington Post concentra o texto da notícia, comentários que estão a ser feitos relativos à mesma no Twitter, vídeos relacionados, e outros artigos com conteúdos semelhantes espalhados pela net. É uma mistura de notícia e de opinião pública. E o que faz com que essa notícia aí se apresente já não são as grandes agências como a American Press ou a Reuters, senão que são os temas quentes da actualidade, venham eles dessas mesmas agências ou de bloggers anónimos. Na tagline do Huffington Post podemos ler: "The Internet Newspaper: News, Blogs, Video, Community".

O pós-jornal tem tanto de notícia como de opinião pública, tanto de facto como de subjectividade.

Conclusão

Em pouco mais de dez anos vimos demolirem-se os três pilares sob os quais assenta o Jornalismo clássico: a objectividade da notícia (com a inclusão dos feeds RSS nos jornais online), o diferenciamento entre jornalista e público (com o surgimento do cidadão-repórter graças aos blogs, podcasts e YouTube), e por último o controlo da actualidade (com a massificação do Twitter).

O que para muitos pode parecer uma visão apocalíptica do futuro do Jornalismo, para este humilde espectador não é mais do que uma revolução mediática que veio igualar a capacidade de influência dos grandes grupos mediáticos e a do cidadão comum. Os media já não são os detentores da verdade. Agora, todos somos os media e todos somos detentores de uma verdade. Somos agora responsáveis de que a verdade de cada um seja uma verdade informada, contrastada e fiável.

Todos somos o nosso próprio jornalista.

 
 
Ensaio realizado para a disciplina de Teoria dos Media, lecionada pelo professor Vania Baldi, do Mestrado em Comunicacão Multimédia

 




Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011
Does he?

 When you stare at your computer, does he stare back at you?




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